quarta-feira, 21 de setembro de 2022

INTROVERSÃO EQUIVOCADA E VERDADEIRA INTERIORIDADE


Sempre existiu um grande perigo, que existe hoje, especialmente para nós em nosso mundo autoconsciente e narcisista, de introversão equivocada, falsa autoanálise, em vez de verdadeira interioridade. A alta prevalência de lesões sofridas psicologicamente e socialmente aumenta esse perigo e requer tratamento gentil e compassivo. Ser verdadeiramente interno é o oposto de ser introvertido. Na percepção da presença interior, nossa consciência muda, transforma-se para que não sejamos mais os mesmos; já não nos vemos da mesma forma, antecipando ou lembrando sentimentos, reações, desejos, ideias ou sonhos. No entanto, estamos nos transformando em algo mais. E isso é sempre um problema para nós.

Seria mais fácil pensar que poderíamos deixar a introspecção se soubéssemos para onde estávamos indo. Se tivéssemos apenas um objeto no qual fixar nossa atenção. Se Deus pudesse ser representado por uma única imagem. Mas o verdadeiro Deus nunca pode ser uma imagem. As imagens de Deus são deuses. Formar uma imagem de Deus é simplesmente restaurar uma imagem que temos de nós mesmos. Ser verdadeiramente interior, abrir os olhos do coração, significa viver sem a visão das imagens. Isso é fé e é a visão que nos permite “contemplar Deus”. Na fé, a atenção é controlada por um novo Espírito, não pelos espíritos de materialismo, egoísmo ou auto-sobrevivência, mas pelo espírito de fé, que por sua natureza é um espírito despossuído.

É um constante desapego, abdicar continuamente das recompensas da própria resignação, que, sendo mais valiosas, tornam ainda mais necessária a nossa volta. Podemos vislumbrá-lo lembrando todos aqueles momentos ou fases de nossa vida em que experimentamos grande paz e alegria e reconhecendo que não foram momentos de posse, mas de entrega aos outros ou a algo, nos quais nos abandonamos para nos dar para outros. O passaporte para o Reino exige a condição de pobreza. No entanto, aprender a centrar-se nos outros é uma disciplina que exige uma atitude de discipulado e implica uma vida de "ascetismo". Não há nada mais difícil do que aprender a desviar a atenção de nós mesmos. Todos nós constantemente tendemos a deixar nossa atenção vagar de volta para a autoconsciência, o egocentrismo e as distrações. Há, portanto, uma verdade simples a descobrir: quando fixamos nossa atenção em Deus, com a visão da fé, tudo nos revela Deus.



Fr. Laurence Freeman, OSB
Carla Cooper (Organ.)



Fonte: do livro “THE SELFLESS SELF”: “The Power of Attention”
Norwich: Canterbury Press, 2008, pp. 31-35
Traducido por WCCM España
Via: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana - http://wccm.es/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/anjo-cemit%c3%a9rio-parque-escultura-348951/

EXPRESSÕES DA UNIDADE


Na realidade, a dualidade não passa de uma expressão da unidade. O número 1 é o primeiro e o único número. Só existe o número 1, é isto que é preciso compreender. E o que representam o 2, o 3, o 4?... Divisões do 1. Arbitrariamente, divide-se o 1 em 2, 3, 4, 5, 6... e cada divisão é apresentada como um novo número, quando não passa de um aspeto diferente do 1. O que é o 2? O 1 polarizado. Pegai num ímã: ele está polarizado, mas não dividido, é um e continuará a ser um. Em parte alguma o 2 está separado do 1. Qualquer objeto, ou mesmo o ser humano, tem duas extremidades, dois polos, mas é sempre um. E o 3? Ora bem, são os dois polos que ficaram ligados e que agem um sobre o outro para produzirem um ser, uma força ou um objeto, que é o 3; mas o 3 também não está separado do 1. E o 4, o 5, também são novos aspetos do número 1; individualmente, eles não existem, só o 1 existe.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: www.prosveta.com
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O MENOR É O MAIOR


"Todo o que receber este menino em meu nome, a mim recebe; e todo o que me receber, recebe aquele que me enviou. Porque aquele que entre vós todos é o menor (pela sua humildade), esse é o maior (no reino dos céus).... porque aquele que dentre vós for o menor de todos, esse é que é grande." (Lc 9,48)


Essa colocação também pode ser vista como uma alusão aos complexos que se revezam entre a consciência e o inconsciente. Quando atribuímos poder ao ego, inflacionando-o, reduzimos a capacidade de aprender pelo Self. Quando diminuímos o poder do ego, ampliamos a capacidade do Self em apreender a realidade. O indivíduo ao elevar-se sem méritos, atribui poder ao ego, inflando-o; dessa forma, vive-se a vida do ego, e não a do Self. Quem deliberadamente exalta suas qualidades, mesmo que as possua, torna-se orgulhoso e vaidoso de si. Esse orgulho cada vez mais estimulado inibe o conhecimento de si mesmo e impede a percepção da sombra, isto é, de suas qualidades negativas e do que desconhece da própria personalidade.

A psicologia do Cristo é cristalina quando a aplicamos ao nosso mundo interior. Não há como fugir de si mesmo. A humildade facilita o processo de autopercepção e de manifestação do Self. O orgulho embota a visão do Espírito, cegando-o à compreensão da realidade.

Quando o orgulho aparece, através da auto-elevação do ego, surge a primazia de uma das personas consolidadas nas encarnações anteriores. Essas personas inconscientes se tornam uma espécie de sub-personalidade. O indivíduo vive artificialmente pela manifestação de uma sub-personalidade, emergida pela energia demasiada atribuída ao ego que lhe dá sustentação. Essa sub-personalidade é nucleada por um ou mais complexos. Como exemplo podemos ver nas pessoas que, em outras encarnações estiveram em posições sociais importantes, mas que na atual encarnação não ocupam lugar de destaque na sociedade, poderá permitir que, pela inflação do ego, essa sub-personalidade assuma a consciência.

Quando não adicionamos excessiva energia ao ego, ampliamos a percepção de nossas próprias limitações, permitindo que enxerguemos a nossa sombra, antes inconsciente.

Da mesma forma, a simplicidade facilita a percepção dos complexos inconscientes, trazendo-os equilibradamente à consciência sem que eles predominem sobre o ego. Na humildade o verdadeiro Eu sobressai-se, para que o Espírito possa crescer, desenvolver-se e alcançar sua plenitude.



Adenáuer Marcos Ferraz de Novaes




Fonte: do livro "Psicologia do Evangelho"
Fundação Lar Harmonia, Salvador, BA, 1999
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FELICIDADE PERENE


Acontece a toda a gente: sentir-se feliz, mas por muito pouco tempo! Estar feliz porque se obteve o que se desejava – sucesso, vantagens materiais ou mesmo o amor de um homem ou de uma mulher – não é realmente a felicidade, porque nunca se pode estar certo de que isso vai perdurar. A verdadeira felicidade assenta numa compreensão correta. Os Iniciados sempre insistiram no fato de a felicidade ser um estado de consciência que resulta da maneira como se sente e se compreende as coisas. Os humanos não poderão ser felizes enquanto o seu intelecto e o seu coração forem um campo de batalha em que se defrontam pensamentos e sentimentos caóticos e devastadores. O trabalho dos Iniciados sempre foi o de ensinar aos humanos a sabedoria e o amor, porque da luz do intelecto e do calor do coração nasce o movimento harmonioso, uma atividade construtiva, equilibrada. E isso é que é a felicidade.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

INSTRUMENTOS DE COMUNHÃO


É muito comum nos encontrarmos subitamente fora de nós mesmos, um tanto exteriorizados, longe da percepção da presença divina ou com sentimento de solidão, como se Deus fosse um estranho inacessível, alguém distante do nosso cotidiano.

Nesses momentos tendemos a esquecer o que é importante, ficamos preocupados com isso ou aquilo e a preocupação é o saldo resultante. A confiança parece ausente e uma perda imediata de força nos rouba a vitalidade, enquanto a mente escurece ao ritmo de pensamentos tempestuosos.

... Examinamos diferentes ferramentas ou recursos que podemos usar para voltar para casa, refazer nossos passos e nos recolher novamente no eremitério interior. Esse recolhimento em princípio nada mais é do que uma mudança de atitude, uma posição que adotamos de espírito diante do que acontece.

Este retorno ao “modo orante” de viver, carregado de sentido e pleno de um sentido íntimo do sagrado, requer, em primeiro lugar, uma firme determinação. É preciso decidir em profundidade o rumo da vida, do próprio comportamento. Tomarei a inquietação como um chamado do espírito, como um aviso para parar e mudar a maneira como estou vivendo o momento? Ou assim que eu sentir desconforto, vou rapidamente "para fora" de mim procurando uma mudança nesta ou naquela situação?

Quando vivemos em paz de coração, muitas vezes descobrimos que não há nada a mudar nas situações ou que essas mudanças são muito mais fáceis de fazer do que imaginávamos. Existem diferentes métodos que podemos usar para retornar ao ser essencial que somos, mas essa decisão prévia que mencionamos é importante, pois nos poupa o exaustivo diálogo interno sobre o que fazer.

O que fazer? Nós já sabemos! Somente retorne ao sagrado que se encontra nas profundezas da alma. Então, se isso não é mais discutido em nossa mente, resta apenas trabalhar quando nos distanciamos de nós mesmos e da presença sagrada. Viver do espírito não implica negar o corpo ou negar a mente, mas integrar as diferentes funções de acordo com o desígnio original.

O corpo e a mente como instrumentos de comunhão e criação a serviço do espírito são maravilhosos. Mas se eles estão no comando, eles se tornam a mais cruel das ditaduras. Peçamos a graça da atenção vigilante, esse dom inestimável que nos mantém ligados ao Espírito Santo.



El Santo Nombre




Fonte: Blog El Santo Nome
https://elsantonombre.org
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 20 de setembro de 2022

COMEÇANDO PELAS PEQUENAS COISAS


A auto-observação e o autoestudo, realizados corretamente, podem nos fazer perceber que há algo de errado com nossa máquina e com nossas funções em seu estado normal. Percebemos que estamos adormecidos e que, por causa disso, vivemos e trabalhamos em uma pequena parte de nós mesmos. A grande maioria de nossas possibilidades não é concretizada, a grande maioria de nossos poderes não é desenvolvida. Sentimos que não obtemos da vida tudo o que ela tem a oferecer em função de defeitos funcionais específicos de nossa máquina, a qual, em seu estado de sono, não consegue receber impressões. A ideia de autoestudo assume novo sentido. Vemos cada função tal como é agora, e como poderia ou deveria ser, e nos perguntamos se vale a pena nos estudarmos assim como somos neste momento. A auto-observação nos leva a compreender que precisamos mudar.

E, ao nos observarmos, percebemos que a própria auto-observação produz certas mudanças em nossos processos interiores. Começamos a compreender que a auto-observação é um instrumento de automudança, um meio de despertar. Ao nos observarmos, lançamos, por assim dizer, um raio de luz sobre processos interiores que até então funcionaram na escuridão. Sob a influência dessa luz, os próprios processos começam a mudar. Há muitos processos psíquicos que só ocorrem no escuro. Até uma débil luz de consciência basta para transformar completamente o caráter de um processo e para tornar impossíveis muitos processos.

A auto-observação é possível apenas depois de nos tornarmos atentos. Precisamos admitir que não temos atenção. E para tentar obtê-la, precisamos começar pelas pequenas coisas. Um aspirante a pianista, por exemplo, só consegue aprender aos poucos. Se quisermos tocar alguma música sem praticar antes, nunca chegaremos a tocar de verdade. Nossas interpretações serão cacofônicas e farão sofrer nossos ouvintes. Isso também acontece com a vivência de ideias psicológicas: a fim de compreender qualquer coisa, precisamos praticar muito. Antes, precisamos tentar realizar pequenas coisas. Se começarmos almejando grandes coisas, nunca conseguiremos nada, e nossas manifestações serão como melodias cacofônicas, fazendo com que as pessoas nos detestem.

A fim de fazer o que é difícil, antes precisamos aprender o que é fácil e admitir que existem dois tipos de ação — a ação automática e a ação segundo uma meta. Precisamos escolher algo simples que hoje não conseguimos fazer e tornar sua realização nossa meta, nosso Deus. Não podemos deixar que nada interfira — nossa única meta é essa. Então, se conseguirmos atingir essa meta, seremos capazes de assumir tarefas maiores. Hoje temos um apetite anormal por coisas que são grandiosas demais para nós. Nunca conseguimos realizar essas coisas. E esse apetite nos impede de fazer as pequenas coisas que poderíamos realizar. Temos de destruir esse apetite e esquecer as coisas grandiosas. Precisamos fazer da luta contra esses hábitos a nossa meta.

Em nossas relações com outras pessoas, precisamos admitir que tolerar as manifestações alheias é importante, a última coisa para nós. Apenas o homem perfeito ou a mulher perfeita conseguem fazer isso. Logo, começamos almejando a capacidade de suportar a manifestação de uma pessoa que hoje não conseguimos suportar sem reagir. Se eu “quiser” — ou seja, se “tiver vontade” — eu “posso”. Sem “vontade”, nunca “posso”. A vontade é a coisa mais poderosa do mundo. A principal causa de nossa fraqueza é nossa incapacidade de aplicar a vontade simultaneamente a nossos três centros (movimento, sentimento e pensamento). Com a vontade consciente, tudo pode acontecer.

Não temos energias para cumprir metas voluntárias, porque todas as nossas forças, adquiridas à noite em nosso estado passivo, são usadas em manifestações negativas. Elas são manifestações automáticas, o oposto de manifestações voluntárias, positivas. Para os que conseguem se lembrar automaticamente da meta mas não têm forças para realizá-la, há um exercício que pode ajudar. Fique sentado sozinho por, pelo menos, uma hora. Relaxe todos os músculos. Permita que as associações surjam, mas não se deixe absorver por elas. Diga-lhes: “Se você me permitir fazer o que quero fazer agora, mais tarde irei satisfazer seus desejos”. Olhe para as associações como se elas pertencessem a outra pessoa, a fim de não se identificar com elas. No final dessa hora, pegue uma folha de papel e escreva ali a sua meta. Faça desse papel o seu Deus — tudo o mais não significa nada. Leia sua meta de maneira constante, todos os dias. Desse modo, ela irá se tornar mesmo sua, uma parte de você: no começo, intelectualmente; mais tarde, de fato. Dedicar-se a uma meta voluntária e realizá-la confere magnetismo e a capacidade de “fazer”.



Georges Ivanovitch Gurdjieff




Fonte: "Em Busca do Ser : o quarto caminho para uma nova consciência"
Tradução Marcello Borges
São Paulo : Editora Pensamento, São Paulo, 2017
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

CONTROLE E ESCOLHA


A principal tarefa na vida é simplesmente esta: identificar e separar as questões de modo que eu possa dizer claramente para mim mesmo quais são externas, fora de meu controle, e quais têm a ver com as escolhas que realmente controlo. Para onde então devo olhar à procura do bem e do mal? Não para coisas externas incontroláveis, mas dentro de mim, para as escolhas que são minhas...

EPICTETO, DISCURSOS, 2.5.4-5


A prática mais importante na filosofia estoica é a distinção entre o que podemos mudar e o que não podemos. Aquilo sobre o que temos influência e aquilo sobre o que não temos. Se um voo é adiado por causa das condições do clima, você pode gritar o quanto quiser com o representante da companhia aérea; isso não vai fazer a tempestade parar. Não importa o quanto você deseje, isso não o tornará mais alto ou mais baixo ou fará com que tenha nascido em outro país. Por mais que tente, você não pode fazer alguém gostar de você. Além disso, o tempo que gastamos arremessando-nos contra esses objetos inamovíveis é tempo que não empregamos em coisas que podemos mudar. As instituições de reabilitação social praticam algo chamado Prece da Serenidade: “Deus, concedei-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar as coisas que posso e a sabedoria para distingui-las.” Dependentes não podem mudar o abuso que sofreram na infância. Não podem desfazer as escolhas do passado ou o dano que causaram. Mas podem mudar o futuro — através do poder que possuem no presente momento. Como disse Epicteto, eles podem controlar as escolhas que fazem neste momento. O mesmo se aplica a nós, hoje. Se pudermos nos concentrar em esclarecer quais partes de nosso dia podemos controlar e que partes não podemos, seremos mais felizes e também teremos uma nítida vantagem sobre as pessoas incapazes de perceber que travaram uma batalha impossível de ser vencida.



Ryan Holiday & Stephen Hanselman




Fonte: "Diário Estoico - The Daily Stoic: 366 meditations on wisdom, perseverance, and the art of living
Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges
Edição digital: 2022, 1ª edição
Ed. Intrínseca Ltda., Rio de Janeiro — RJ
www.intrinseca.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

CIÊNCIA INICIÁTICA E ATITUDE SAGRADA


Deveis aumentar a vossa atenção e o vosso amor pelas verdades da Ciência Iniciática, pois essas verdades merecem que tenhais para com elas uma atitude sagrada. Os nossos contemporâneos têm tendência a já não considerar nada como sagrado, com o pretexto de que se deve mostrar espírito crítico e desmistificar as noções filosóficas e religiosas que gerações demasiado crédulas foram construindo. Esta tendência é muito prejudicial à sua evolução, porque então a Natureza fecha-se para eles, não lhes faz qualquer revelação. A Natureza só se descobre perante os humanos que têm o sentido do sagrado. Se aprenderdes a cultivar esta atitude, tereis revelações extraordinárias. Não apenas as revelações que virão do vosso Mestre, que, aliás, não serão muito substanciais enquanto não vierem igualmente de vós. Quando souberdes encontrar a atitude certa, as revelações virão também de vós e ficareis surpreendidos ao descobrir maravilhas que ainda não tínheis imaginado.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

SILÊNCIO, SIMPLICIDADE E ABISMO INTERIOR


No processo de simplificação evangélica é necessário aludir à estreita relação que tem com o silêncio. No fundo, essa renúncia de apegos, afetos, necessidades, preocupações consiste no exercício de silenciar todas as pressões externas que me dizem o que é importante para os outros, e também as pressões internas que me impõem o que absolutamente preciso para viver: os afetos , estima, valor, segurança ou prestígio. De fato, o silêncio é o clima em que o olhar se simplifica e o coração se unifica. Mas, para isso, não basta o silêncio externo, em que se silenciam as vozes e os ruídos ao nosso redor, é necessário sobretudo o silêncio interior, que consiste em silenciar as reivindicações e os ruídos que vêm das paixões.

Se meus desejos, meus medos, minhas alegrias e minhas dores, se todos os movimentos que vêm dessas "quatro paixões" não fossem perfeitamente ordenados a Deus, eu não estaria solitário, haveria ruído em mim; é necessário o apaziguamento, o "sono das paixões", a unidade do ser*.

É a mesma coisa que São João da Cruz nos ensina quando fala de acalmar a casa interior: Daí, nas quatro paixões da alma, que são: alegria, dor, esperança e medo, sendo acalmado pela mortificação contínua, e nos apetites naturais adormecer na sensualidade pela secura ordinária, e na elevação da harmonia dos sentidos e poderes interiores, cessando suas operações discursivas, como dissemos, que é todo o povo e morada da parte inferior da alma, que é o que aqui chama de sua casa, dizendo: "Minha casa já está calma"**.

O silêncio de que precisamos não pode consistir simplesmente em calar a boca ou fugir dos ruídos externos. O verdadeiro silêncio tem a ver com a descoberta do tesouro, porque é fruto da atração de Deus. Se ele me encontra, me oferece seu amor e me chama para ele - essa é a essência da vocação cristã - ele me atrai para ser dele. E a primeira resposta a essa atração é atenção prioritária a ele, escutá-lo; e só podemos ouvir se calarmos a boca. Mas presos nas complicações da vida e dentro de nós mesmos, não podemos ouvir a Deus. Devemos, então, entrar em um processo pelo qual tudo se simplifica, precisamente porque as vozes interiores e exteriores que não vêm de Deus são silenciadas e o supérfluo desaparece, para que Deus possa realmente começar a ser Deus em nós. É um itinerário ao qual Deus nos atrai para nos fazer seus e entrar em profunda comunhão de amor com Ele; itinerário percorrido em desapropriação e abandono, que supõe uma verdadeira descida ao abismo interior em que tudo que não é Deus é silenciado e, assim, tudo se simplifica à força de olhar apenas para Deus e buscar apenas a sua vontade. Esta mudança é como a inclinação que nos faz descer para o abismo interior onde Deus habita. É o caminho necessário para que nossa habitação em Cristo se torne uma realidade da mesma forma que ele habita em nós. E a simples intenção é o que nos torna semelhantes a Deus.

A simplicidade da intenção é o que dá às almas o descanso em Deus, como um abismo insondável ao qual devemos aspirar, como nos diz a Carta aos Hebreus: "Esforcemo-nos, pois, por entrar nesse descanso" (Hb 4,11).

"A simplicidade comunica à alma o repouso do abismo." Ou seja, o descanso em Deus, abismo insondável, prelúdio e eco daquele descanso eterno de que fala São Paulo: "Nós, os que cremos, seremos introduzidos no descanso" (Hb 4,3)***.




*Santa Isabel de la Trinidad, Últimos exercícios, décimo dia.
**San Juan de la Cruz, Noite Negra, Livro I, cap. 13, 15.
***Santa Isabel de la Trinidad, Últimos exercícios, terceiro dia, que comenta uma frase de Ruisbroeck.




Fonte: do texto "A Simplicidade Espiritual"
Hermandad de Contemplativos en el Mundo
Madrid (España)
hermandad@contemplativos.com
https://contemplativos.com/retiro-espiritual/la-simplicidad-espiritual/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

TEORIA ESOTÉRICA DA RESPIRAÇÃO


A ciência da respiração, como muitos outros ensinamentos, tem um duplo aspecto: um esotérico ou interno e outro exotérico ou externo. Sua face fisiológica pode ser chamada de parte externa ou exotérica do assunto, e o aspecto que vamos considerar agora, como o esotérico ou interno.

Ocultistas de todas as eras e países sempre ensinaram, geralmente em segredo, a um pequeno número de discípulos, que há no ar uma substância ou princípio do qual derivam toda atividade, vitalidade e vida. Eles diferiam nos termos e nomes que deram a essa força, bem como nos detalhes das teorias, mas o princípio fundamental pode ser encontrado em todos os outros ensinamentos e filosofias ocultistas, e por séculos também fazia parte dos ensinamentos dos iogues orientais.

Para evitar as interpretações errôneas das diversas teorias, referentes a este grande princípio, vinculadas geralmente a um nome dado a este princípio..., vamos nos referir a ele chamando-o de 'Prana', termo sânscrito que significa 'Energia Absoluta'.

Muitos eruditos em esoterismo ensinam que o princípio denominado 'Prana' pelos hindus é o princípio universal de energia ou força, e que toda energia ou força deriva deste princípio, ou melhor, é uma forma particular da manifestação deste princípio... Podemos considerá-lo como o princípio ativo de vida ou Força Vital, se assim lhes agrada. Ele é encontrado em todas as formas de vida, desde a ameba até o homem, desde a forma mais elementar de vida vegetal à mais elevada forma de vida animal. 'Prana' é onipresente. Encontra-se em todas as coisas que têm vida, e como a filosofia ocultista ensina que a vida reside em todas as coisas, em cada átomo e que a aparente falta de vida de algumas coisas é só um grau inferior de manifestação, podemos admitir este ensinamento de que o 'Prana' está em todas as partes e em todas as coisas.

Não se deve confundir o 'Prana' com o ego, esse fragmento de espírito divino que há em toda alma, em volta do qual se agrupa a matéria e energia. 'Prana' é meramente uma forma de energia utilizada pelo ego, em sua manifestação material. Quando o ego abandona o corpo, não estando mais o 'Prana' controlado pelo ego, só responde aos comandos dos átomos individuais ou grupos de átomos, que formam o corpo, e quando o corpo se desintegra e se dissolve em seus elementos originais, cada átomo leva consigo suficiente 'Prana' para permitir-lhe formar novas combinações, e o 'Prana' não utilizado volta ao grande depósito universal do qual se originou. Enquanto o ego controla, existe coesão, e os átomos mantêm-se unidos pela vontade do ego.

'Prana' é o nome com que se designa um princípio universal, a essência de todo movimento, força ou energia, que se manifesta na gravidade, na eletricidade, na revolução dos planetas ou em todas as formas de vida, desde a mais elevada até a mais baixa. Podemos chama-lo a alma da Força e da Energia, em todas as suas formas; o princípio que, operando de certo modo, produz a forma de atividade que acompanha a vida.

Este grande princípio existe em todas as formas de matéria, mas não é matéria. Está no ar, mas nenhum de seus elementos químicos é ar. Animais e plantas o respiram com o ar, mas se o ar não o contivesse morreriam, não importa quanto ar respirassem. É tomado pelo sistema junto com o oxigênio, mas não é oxigênio. O escritor hebreu, autor do Gênesis, sabia a diferença entre o ar atmosférico e o princípio misterioso e poderoso contido nele. Fala de neshemet ruach chayim, que traduzido significa: “o sopro do espírito da vida”. Em hebraico, neshemet (neshimah) significa respiração comum do ar atmosférico e chayim¸ vida ou vidas; enquanto a palavra ruach, significa “o espírito da vida”, que, segundo os ocultistas, é o mesmo princípio que chamamos de 'Prana'.

O 'Prana' está no ar atmosférico, mas também está em toda parte e penetra onde o ar não pode chegar. O oxigênio no ar desempenha um papel importante na sustentação da vida animal, e o carbono desempenha uma função semelhante na vida vegetal, mas o 'Prana' tem sua própria função distinta nas manifestações da vida, além das funções fisiológicas.

Estamos constantemente inalando o ar carregado de 'Prana', e também estamos constantemente extraindo este daquele, apropriando-o para nosso uso. 'Prana' sendo encontrado em seu estado mais livre no ar, e em quantidade regular quando este é puro, obtemos dessa fonte mais facilmente do que em de qualquer outra. Na respiração normal absorvemos e extraímos uma quantidade normal de 'Prana', mas respirando controladamente e reguladamente (geralmente conhecido como respiração iogue), nos colocamos em condições de extrair uma quantidade maior, que fica concentrada no cérebro e nos centros nervosos para ser usada quando necessário. Podemos armazenar prana da mesma forma que acumuladores armazenam eletricidade. Os numerosos poderes atribuídos aos ocultistas avançados devem-se, em grande parte, ao conhecimento desse fato e do uso inteligente dessa energia acumulada. Os iogues sabem que por certas formas de respiração, eles podem estabelecer certas relações com o estoque de 'Prana' e usa-lo para suas necessidades. Não apenas todas as partes do corpo são fortalecidas dessa maneira, mas o próprio cérebro pode receber um aumento de energia da mesma fonte, as faculdades latentes são desenvolvidas e os poderes psíquicos desenvolvidos.

Aquele que possui a faculdade de armazenar 'Prana', consciente ou inconscientemente, irradia muitas vezes vitalidade e força que é sentida por aqueles que entram em contato com ele, e tal pessoa pode transmitir sua força para os outros e dar-lhes um aumento de vitalidade e força. Tal pessoa que pode comunicar sua força aos outros e dar-lhes maior vitalidade e saúde realiza o processo chamado de "cura magnética", embora muitos dos magnetistas não percebam a origem de seu poder.

Os cientistas ocidentais tiveram alguma ideia da existência deste grande princípio, do qual é carregado o ar; mas vendo que escapou da análise química e não foi registrado por nenhum de seus instrumentos, têm geralmente tratado a teoria oriental com desdém. Não sendo capazes de explicar este princípio, eles o negaram. No entanto, eles parecem reconhecer que o ar em certos lugares tem uma certa quantidade de "algo" e os médicos mandam os doentes para esses lugares na esperança de vê-los se recuperar de sua saúde.

O oxigênio do ar é assimilado pelo sangue e utilizado pelo sistema circulatório. O 'Prana' do ar é assimilado pelo sistema nervoso e utilizado em seu trabalho. E assim como o sangue oxigenado circula por todas as partes do corpo e cuida de sua construção e reparo, assim também o 'Prana' circula por todas as partes do sistema nervoso acrescentando força e vitalidade. Se representarmos o 'Prana' como o princípio ativo do que chamamos vitalidade, poderemos formar uma ideia muito mais clara do importante papel que desempenha na nossa vida.

Da mesma forma que o oxigênio do sangue é consumido pelas necessidades do sistema, o suprimento de 'Prana' é esgotado por nossos pensamentos, volições, ações etc., e torna-se necessário, consequentemente, uma substituição constante. Cada pensamento, ato, esforço de vontade e movimento de um músculo consome uma certa quantidade do que chamamos de força nervosa, que na verdade é uma forma de 'Prana'. Para mover um músculo, o cérebro envia um impulso sobre os nervos e os músculos se contraem causando um gasto de 'Prana' proporcional ao esforço realizado. Se você levar em conta que a maior soma do 'Prana' adquirido pelo homem chega até ele através do ar inspirado, é fácil apreciar a importância de uma respiração correta.



Yogi Ramacharaka




Fonte: do livro "A Ciência Hindú-Yogi da Respiração", Ed. Pensamento
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/medita%c3%a7%c3%a3o-reflex%c3%a3o-universo-pessoa-5144249/

sábado, 17 de setembro de 2022

ESTADOS DE CONSCIÊNCIA NO ASTRAL


Para a Ciência Iniciática, o ser humano é um reflexo, uma imagem do Universo e, portanto, tal como o Universo, é composto por regiões, por "corpos" diferentes. A ciência oficial ainda não admitiu esta realidade, e daí advêm muitos erros, nomeadamente na medicina e na psicologia.

Os hindus dividem tradicionalmente o ser humano em sete corpos, e a maior parte dos espiritualistas aceita esta divisão. O corpo mais material, e o único visível para nós, é o corpo físico, mas existem mais seis corpos compostos de uma matéria cada vez mais sutil, os corpos etérico, astral, mental, causal, búdico e átmico. Na realidade, o corpo etérico ainda faz parte do corpo físico e apresenta-se sob quatro estados, chamados éter-químico, éter-vital, éter-luz e éter-refletor. Por isso, podemos dividir o corpo físico em sete: os estados sólido, líquido e gasoso, e os quatro estados etéricos. Os outros corpos também podem ser divididos em sete; assim, no astral há três regiões inferiores e quatro regiões superiores, e é nestas regiões superiores que vivem os anjos.

O que é um anjo? Um anjo é uma criatura imortal feita de uma matéria tão pura, tão sutil, que nada de mau ou obscuro pode atingi-la. Vive na luz, na alegria absoluta, e conhece tudo excepto o sofrimento. O sofrimento tem sempre origem nos movimentos da natureza inferior, que causam distúrbios e perturbações. Um anjo não pode conhecer essas perturbações porque é absolutamente puro. Não existem anjos no plano físico, eles só se encontram a partir das regiões superiores do plano astral.

No limite entre o plano astral inferior e o plano astral superior, existe uma zona intermédia habitada por seres que estão a aperfeiçoar-se, a cortar os laços com as regiões inferiores, mas que ainda estão sujeitos aos tormentos causados pelas más influências do plano astral inferior e do plano físico. Por conseguinte, o plano astral é, ao mesmo tempo, o mundo do sofrimento e o mundo da alegria; da alegria quando o homem consegue depurar e sutilizar os seus desejos, e do sofrimento quando ele vive demasiado baixo, preso nas cobiças e nas paixões.

No momento da morte, o homem desliga-se do seu corpo físico, mas isso não é suficiente para ele ficar imediatamente liberto. Podemos dizer que ele fica ainda mais exposto aos tormentos do que quando estava na terra. Com efeito, durante a vida terrena, o nosso corpo físico é uma carapaça, uma couraça que nos impede de sentir a realidade do mundo psíquico; mas quando os seres, pela morte, se libertam do corpo físico e ficam no astral sem defesas, arriscam-se a sofrer bastante e a ser muito infelizes.

O Inferno não é senão um estado de consciência vivido muito intensamente no plano astral. Só depois de purificados por meio do sofrimento é que os seres conseguem, finalmente, sair de lá. Todos aqueles que mergulharam completamente numa vida de devassidão, de injustiças, de maldades e de crueldades, e que conseguiram escapar à justiça humana, quando morrem vêem-se confrontados no plano astral com todo o mal que fizeram; eles não podem encontrar refúgio em parte alguma, porque já não têm o corpo físico que os protegia e os insensibilizava, e sentem exatamente os sofrimentos que infligiram a outros seres quando estavam na Terra.

Certamente já tivestes pesadelos e reparastes que, na maior parte das vezes, o pesadelo se interrompeu de repente porque acordastes sobressaltados, contentes por vos encontrardes a salvo no vosso corpo físico e dizendo: «Felizmente foi só um sonho!»

Porque é que acordastes em sobressalto? Porque, subconscientemente, vós sabeis que, para vos defenderdes dos seres ou das forças hostis do plano astral, deveis regressar ao vosso corpo físico, que é como uma fortaleza onde podeis abrigar-vos. Se permanecerdes no plano astral, continuareis à mercê dos vossos inimigos. Mas vós deixais esse plano, regressais ao corpo físico, que é espesso, sólido, e escapais-lhes. É exatamente como se fôsseis perseguidos na rua e vos refugiásseis numa casa: aí não podereis ser atingidos pelas facas nem pelas balas.

A mesma lei existe em todos os domínios. Pode acontecer também que, durante as suas meditações, algumas pessoas se desdobrem, ou seja, se projetem fora dos seus corpos físicos, e sejam atraídas para as regiões perigosas do plano astral, onde são também perseguidas e ameaçadas. Então, a primeira coisa que devem fazer é regressar ao corpo físico para se abrigarem.

O corpo físico é uma boa fortaleza, mas se o homem tiver transgredido as leis do amor, da sabedoria e da verdade, quando deixa esse corpo, na altura da morte, é forçado a compensar, no plano astral, por todas essas transgressões. Isto não é invenção: os maiores Mestres da humanidade sempre o disseram; grandes artistas, pintores e poetas representaram esse mundo nas suas obras; e pessoas clinicamente mortas durante três ou quatro dias voltaram à vida e puderam contar o que tinham vivido no plano astral. O Céu permite que, de tempos a tempos, algumas pessoas passem por esta experiência, para levar os humanos a ganhar juízo, para lhes lembrar certas verdades.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: Publicações Maitreya, Porto,Portugal
https://publicacoesmaitreya.pt
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

APRENDER A PERMANECER NA LUZ


Sair das sombras pode ser um processo doloroso. Todos nós temos o nosso esconderijo preferido onde nos refugiamos, para onde vamos quando queremos descansar um pouco. Mas sair para a luz é abrir mão de todos esses esconderijos porque tomamos como lugar de descanso, a pura luz de nosso Senhor Deus. Devemos ser muito simples sobre isso, como as crianças. Não complique. Simplifique.

Todos os exemplos e metáforas têm riscos. Não estamos falando aqui de uma luz ofuscante de uma lâmpada lançando uma luz branca cruel, implacável e impiedosa sobre nós. Quando falamos de Deus como luz, falamos de uma luz pura, suave, onipresente, uma luz pura que sempre nos ilumina e vivifica, e nos banha em seus raios. É uma luz brilhante e quente. É acima de tudo uma luz que revela a realidade como Amor e quando alcançamos essa luz, reconhecemos sua unidade pessoal, sua totalidade diante de nós. Reconheceremos também que permanecendo na luz poderemos ver nosso próprio ser, porque a luz nos permite ver tudo como é. Nossa tentação seria tentar analisar a luz, dividi-la em suas partes constituintes de seu espectro.

Análise e reducionismo são atitudes desastrosas na oração porque assumimos que o todo é feito de partes, que a parcialidade vem em primeiro lugar e que o todo é criado a partir daí. A fé, por outro lado, vai mais fundo do que a análise, confiando que o todo é anterior às suas expressões parciais. Assim que começamos a nos concentrar – a pensar – em algum atributo de Deus na oração, somos abandonados à experiência de Deus, porque Ele mesmo é inteireza e indivisibilidade na simplicidade.

O convite que cada um de nós recebe é para ver a luz plena e completa, porque nosso convite é ver o que é, seja o que for, em sua totalidade e plenitude. Aprender a permanecer na luz é o objetivo da meditação. A luz que nos ilumina nos ensina que Deus é tudo. A luz que ilumina nos ensina que só podemos ser quando estamos em Deus, porque Ele é tudo o que é.

Isto é o que aprendemos a ver claramente no brilho da luz, que Deus é, que Deus é tudo e que Deus é Amor. Lembre-se do caminho. O jeito é parar de pensar. O jeito é parar de imaginar. Ela desliga os processos da mente e fica silenciosa e atenta. A maneira de chegar a esse silêncio totalmente desperto e consciente e a maneira de desligar as operações da mente é aprender a dizer seu mantra*. Para aprender a dizer o mantra devemos ser humildes e pacientes. Devemos entender que levará tempo, que teremos falsos começos. Inevitavelmente haverá falhas das quais desistiremos. Mas não se preocupe com nada disso. A única coisa que importa é recomeçar. Recomeçar é estar na estrada, na peregrinação.

* Mantra, aqui neste contexto, é uma ou mais palavras, numa determinada língua, que tenha algum significado na condução da nossa meditação. 



Fr. John Main, OSB



Fonte: do livro "O Coração da Criação", Canterbury Press, 2007
Traduzido para o espanhol por Lucía Gayón, e para o português por este blog.
PERMANECER EN SU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón - Ixtapa, México
www.permanecerensuamor.com - permanecerensuamor@gmail.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

VERDADEIRO DESAPEGO


Uma pessoa não pode desdobrar-se verdadeiramente se não aprendeu a desapegar-se… até ao último: a morte. Quantas pessoas não há que, como nunca aprenderam a desapegar-se, não conseguem, nem mesmo no momento da morte, desligar-se do corpo físico! Existem laços poderosos que as retêm. Enquanto estavam vivas, só pensavam nas questões materiais, no dinheiro, nos prazeres; então, como é que elas podem aceitar abandonar tudo isso? Assim, durante muito tempo, ficam vagueando em redor do corpo, pelos lugares onde viveram, perto dos seres que conheceram, e sofrem terrivelmente, até que servidores de Deus venham ajudá-las a libertarem-se. Outras, pelo contrário, deixam de imediato o corpo físico, como quem despe a camisa, tranquilamente, numa alegria maravilhosa. Por esta razão é que nas Escolas Iniciáticas sempre se ensinou os discípulos a cultivarem o desapego.

«Então - direis vós -, para nos desapegarmos temos de nos afastar do mundo, temos de deixar de nos dar com os humanos?» Não. Certos ascetas, certos eremitas, que compreenderam assim o desapego, fecharam-se num buraco, numa gruta de montanha… Eles pensavam que se tinham desapegado realmente, mas o seu desapego era apenas exterior. Na maior solidão, de repente eram assaltados por toda a espécie de desejo e cobiças. Graças à sua solidão, o "Diabo" podia visitá-los à vontade! A literatura está cheia de histórias que contam as tentações dos santos, dos eremitas… Não, não se trata de abandonar tudo, mas sim de compreender que o verdadeiro desapego é interior e que só a pureza pode conduzir-nos a ele.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: Publicações Maitreya, Porto, Portugal
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Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

AKASHA E PRANA: O UNIVERSO


Segundo os filósofos da Índia, todo o Universo se compõe de dois materiais, um dos quais é chamado Akasha. É a existência onipresente e onipenetrante. Tudo o que tem forma e é resultado de compostos, evolui deste Akasha. O Akasha se converte em gás, transforma-se em líquido, chega a ser sólido; o Akasha converte-se no Sol, na Terra, na Luz, nas estrelas, nos cometas; também se converte no corpo, no corpo animal, nos planetas, em todas as formas que vemos, tudo o que é pressentido e tudo o que existe. O Akasha não pode ser percebido, pois é tão sutil que está muito além de toda a percepção comum; só pode ser visto quando se torna denso e toma forma. No princípio da criação só existia este Akasha; no final do ciclo, os sólidos, líquidos e gases, todos fundir-se-ão de novo no Akasha, e a criação seguinte surgirá, de modo similar, deste Akasha.

Qual o poder que converte este Akasha no universo? É o poder do Prana. Assim como o Akasha é o material onipresente e infinito deste universo, Prana é o poder manifestante, onipresente e infinito deste universo. No princípio e no final de um ciclo, tudo se converte em Akasha, e todas as forças que existem no universo retornam ao Prana. No ciclo seguinte, deste Prana evoluirá tudo o que chamamos energia e força. Prana manifesta-se como movimento, gravidade e magnetismo. Prana manifesta-se como atividades do corpo, correntes nervosas e força mental. Desde o pensamento até a força física inferior, tudo é manifestação de Prana. Ao conjunto das forças do universo, mentais ou físicas, quando voltam a seu estado original, denomina-se Prana.



Swami Vivekananda




Fonte: do livro "Raja Yoga", Ed. Pensamento
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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

ATRIBULAÇÃO


O sofrimento é bem reconhecido nos meios espiritualistas como sendo meio de ascensão espiritual, quando recebido com paciência e resignação. São lições de aprendizado nos caminhos que cada um tem de percorrer. Devemos, por isso, amar a todo tipo de aflições, mas nunca procurar padecimentos, com a falsa ideia de que eles nos elevam.

O Cristo, quando disse “Bem-aventurados os aflitos, que deles é o reino dos céus” não se referia a esses aflitos escandalosos, que mostram as aflições, procurando compaixão dos outros; os que semeiam ideias negativas, mostrando a dor em tudo, continuam, mesmo no mundo espiritual, nas trevas, por pensar nelas e divulgá-las. As bem-aventuranças são para os que sofrem amando a dor e extraindo dela o que ela traz de educação, abrindo os ouvidos à sua palavra, no silêncio da própria vida, como sendo a educadora de grande valor, e mesmo uma mensageira de Deus, que abre os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos.

Ver nos sofrimentos somente atribulações é desconfiar da Divindade e não aceitar a lei de justiça, que evidencia Deus ajudando a todos os Seus filhos.

Quando se é oprimido, é necessário esquecer a revolta e procurar na tolerância a razão do que está acontecendo; se Deus está em toda parte, está certamente vendo Seus filhos passarem pelas aflições e, na hora certa, quando assimiladas as lições, Ele oferece o amparo proveitoso. As tormentas acontecem para acordar a alma, no aspecto de que ela está esquecida, mostrando os caminhos que lhe favorecem a paz.

Bem-aventurados os aflitos, aqueles que a natureza oprime por todos os meios, para os fazer sentir, ver e se decidirem a melhorar, mudando de vida, que sentem a necessidade do perdão, corrigindo os impulsos do revide, cortando as arestas da valentia, no esquecimento das faltas.

Bem-aventurados os aflitos que, mesmo na aflição e entristecidos, ainda procuram e acham meios de servir ao ofensor e orar por eles, que trabalham em favor de todos, sem escolher somente os que estão mais próximos da sua sintonia, que amam o próximo como a si mesmos.

É dever do companheiro que já conhece o Cristo, que O identifica sempre nos caminhos, ser mortificado; no entanto, que os ouvidos estejam em conexão com o verbo do Senhor, na prática da caridade para se fazer reconhecido como instrumento do amor. A opressão pode ocorrer sempre nos caminhos do verdadeiro cristão, mas, em vez de desviá-lo do caminho do bem, o fenômeno se dá ao contrário, despertando no seu coração mais amor, mais fraternidade, mais benevolência, mais entendimento para com todos os acontecimentos; é sempre luz nos caminhos de quem anda nas trevas.

A aflição é oportunidade para o cristão de provar a sua fé, a sua coragem para enfrentar as duras horas que tem de passar ao acompanhar o Cristo; os Seus discípulos cresceram dando testemunhos nas aflições, nas fogueiras, nas cruzes, nos arrochos, nas prisões, mostrando ao seu Mestre que assimilaram as lições, na profundidade que elas foram ministradas.

Quem deseja acompanhar o Cristo tem de dar os testemunhos, transformando as aflições em esperanças, mudando o desconforto em prazeres, transmutando a cruz em glória, e todos os padecimentos em ensejos para despertar os valores da vida, na intimidade do coração. Aí podemos entender o que disse Jesus acerca das bem-aventuranças, conhecendo os valores do Espírito e vivendo-os na glória da verdadeira vida: devemos começar entendendo a nós mesmos, que o entendimento para com os outros ficará mais fácil, estendendo esse respeito a tudo que se integra à criação de Deus.

As tribulações são passageiras, as aflições são breves e a dor permanecerá conosco até compreendermos as suas lições. [...]

Não temamos as aflições; sejam elas quais forem, compreendamos suas lições, toleremos, confiemos em Deus, tenhamos fé e paciência, e não culpemos a ninguém pelos possíveis tormentos, que a luz em nossos corações se acenderá como o sol do meio-dia.



João Nunes Maia / Miramez




Fonte: do livro "Máximas de Luz", cap. 11
Ed. Espírita Cristã Fonte Viva, Belo Horizonte/MG
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A TERRA NÃO É O ÚNICO LOCAL HABILITADO À REENCARNAÇÃO


Não são sempre as mesmas almas que vêm encarnar-se na Terra. Pode acontecer que as mesmas voltem muitas vezes ao longo dos milênios, mas não é necessariamente assim. A Terra não é o único local onde as criaturas podem fazer estágios e desenvolver-se. Por todo o Universo há "Terras" onde as criaturas se instruem. Então, tal como há seres que vêm de outros planetas para realizar certas missões na Terra e se vão embora depois de as ter cumprido, também há outros seres que deixam a nossa Terra para ir a outros planetas. São os Vinte e Quatro Anciãos que presidem a esta circulação de almas.

Mas, no momento em que o homem morre, as portas da Terra fecham-se atrás dele; ele entra noutra corrente e não tem o direito de voltar para trás. É por isso que não é bom evocar os mortos, pois desse modo impede-se a sua evolução. Há que orar por eles, há que enviar-lhes luz para que evoluam e se libertem, mas não se deve ficar agarrado a eles para os reter nem, sobretudo, procurar trazê-los de volta à Terra.

Nos livros antigos, encontram-se numerosos relatos de evocações de mortos: degolavam-se animais e, com o sangue, atraíam-se as suas almas. Na Odisseia, há um episódio em que Ulisses faz regressar dos infernos a sombra do adivinho Tirésias para este lhe predizer o futuro. E no Antigo Testamento também se pode ler a narração da visita que o rei Saul fez à mágica de En-Dor, para que ela fizesse aparecer a sombra do grande rei Samuel: ele queria que Samuel lhe desse a conhecer o desfecho da guerra que tratava contra os Filisteus. Dá-se a este gênero de evocação o nome de "necromancia", pois trata-se de uma predição do futuro (mância) por intermédio dos mortos (necro). Mas recordai-vos do que Samuel disse quando apareceu a Saul: «Porque me importunaste, chamando-me?» Sim, pois os mortos que viveram na Terra como grandes espíritos não gostam de ser importunados para satisfazer a curiosidade dos vivos; eles sentem-se tão longe das suas preocupações mesquinhas e limitadas! É claro que não os esqueceram, que aceitam ajudá-los, mas de outro modo. *

* Noutra conferência, Omraam Mikhaël Aïvanhov disse o seguinte:

«Quando, no momento da transfiguração no Monte Tabor, Jesus apareceu aos seus discípulos, estava tão luminoso e radiante que eles não puderam suportar essa luz e caíram por terra. Esta transfiguração era uma irrupção do seu corpo espiritual, o seu corpo de glória, no plano físico. Ainda não tinha chegado o momento de Jesus desligar o seu corpo glorioso do corpo físico para viver nele definitivamente, mas este já podia aparecer na plenitude da sua manifestação. Algumas pessoas puderam ver o corpo glorioso de certos Iniciados quando estes se encontravam em estados de deslumbramento e de êxtase: o seu rosto irradiava, a luz jorrava de todo o seu ser. É graças a esse corpo que os Iniciados podem viajar para o espaço, atravessar montanhas e até penetrar no centro da terra, pois nenhum obstáculo material pode detê-lo. Sim, e mesmo que o seu corpo físico esteja muito maltratado, um Iniciado pode sempre trabalhar e enviar auxílio, pois o corpo físico e o corpo de glória são duas realidades totalmente diferentes. Mesmo que um Iniciado esteja a morrer, mesmo que esteja morto, o seu corpo de glória está vivo, irradiante, e pode contactar com as criaturas no espaço para as instruir, as aconselhar, as consolar e lhes transmitir as suas bênçãos.»



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: Publicações Maitreya, Porto,Portugal
https://publicacoesmaitreya.pt
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A LINGUAGEM DO SILÊNCIO


A linguagem é muito fraca para explicar a totalidade do mistério. É por isso que o silêncio absoluto da meditação é tão importante. Durante a meditação, não tentamos pensar em Deus, nem falar com Ele, nem imaginá-Lo. Permanecemos no silêncio misterioso, abertos ao silêncio eterno de Deus. Na meditação descobrimos, através da experiência da prática diária e do ensino, que este é o ambiente natural para todos nós. Fomos criados para isso e nosso ser floresce e se expande nesse silêncio eterno.

No entanto, a palavra “silêncio” pode distorcer a experiência e afastar muitas pessoas, pois sugere uma experiência negativa, como a privação do som ou da linguagem. As pessoas têm medo de que o silêncio da meditação seja prejudicial. Mas a experiência e a tradição nos ensinam que o silêncio da oração não é um estado pré-linguístico, mas pós-linguístico, no qual a linguagem cumpriu sua função de nos indicar, por si mesma e além, o reino da consciência mental.

No silêncio eterno nada nos falta e nada nos priva. É o silêncio do amor, da aceitação incondicional. Descansamos em Deus que nos ama e nos criou para estar com Ele.



Dom John Main, OSB


Carla Cooper (Organ.)
Traducido por WCCM España




Fonte: do livro “LA PALABRA HECHA CARNE: El Silencio del Amor”, Norwich: Canterbury Press, 2009, pp. 29-30
Via: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana - http://wccm.es/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

ÂNIMO, DEVOTO!


A mudança – mesmo para melhor – é muitas vezes encarada com desconfiança. “Se eu renunciar a tudo”, costumam pensar as pessoas, “não acabarei ficando sem nada?” É preciso coragem para trocar o conhecido pelo desconhecido. Não é fácil sequer substituir uma dor conhecida por uma felicidade desconhecida e, portanto, incerta. A mente é como o cavalo que puxou durante anos sua carroça de entrega: acostumou-se ao trajeto diário e não pode ser convencido com facilidade a mudar de rumo. A mente também não renuncia sem mais nem menos a seus velhos hábitos, mesmo sabendo que eles só lhe causam sofrimento.

Mudanças benéficas devem ser recebidas com coragem. Se as esperanças de coisas melhores forem anuladas pelo medo de sua obtenção, a mente jamais ficará em paz. Aceite, pois, a mudança como a única constante da vida. Nossa vida é um cortejo infindável de ganhos e perdas, alegrias e tristezas, sonhos e desilusões. Num momento, sentimo-nos ameaçados pela tempestade dos infortúnios; um momento depois, uma faixa prateada ilumina as nuvens escuras; e logo, como num passe de mágica, os céus se tornam novamente azuis.

Aquele que busca com sinceridade, na prática, ao contrário daquele que “busca” na poltrona e desperdiça a vida ruminando teorias intelectuais, entusiasma-se ao pensar na dura tarefa que tem pela frente. O guerreiro autêntico, mesmo que sinta medo, atira-se corajosamente à batalha quando a força do braço se torna necessária. O alpinista de verdade, embora apreensivo diante da encosta íngreme que deverá escalar, prepara-se resolutamente para conquistá-la. E o homem sincero na busca da verdade diz a si mesmo: “Sei que alcançar a perfeição é uma tarefa árdua, mas farei de tudo para alcançá-la. Com a ajuda de Deus, o sucesso será meu!” Meditando incansavelmente dia após dia, ele finalmente toma consciência do corpo e recupera a percepção da divina bênção interior, que há muito perdera.

Ânimo, devoto! Não importa quão árido, duro e ressequido tenha se tornado o solo de seu coração durante os anos de fome da indulgência sensual, do fracasso e do desapontamento, ele pode ser regado e fertilizado novamente pelas águas vivificantes da comunhão interior. Seu entusiasmo espiritual, há muito arrefecido, pode ganhar vida nova. Basta que você beba de novo o vinho antigo da comunhão com Deus. No campo do empreendimento espiritual fervoroso, lance novamente à terra macia das percepções renovadas da alma as sementes do sucesso espiritual e veja-as transformar-se numa seara de alegrias divinas.


Paramhansa Yogananda




Fonte: do livro "A Sabedoria de Yogananda - Como Ter Coragem, Serenidade e Confiança"
Ed. Pensamento, São Paulo/SP, 2012 - 1ª Ed. Digital, 2020
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

domingo, 11 de setembro de 2022

O CRESCIMENTO IMPLICA MUDANÇAS


São Bento entendia a conversão como um processo contínuo. Precisamos constantemente direcionar nossa atenção para a Realidade Superior em oração/meditação e em nossos relacionamentos diários com os outros.

Mas mover-se em direção a algo sempre implica afastar-se de outra coisa. Precisamos mudar nosso foco das realidades externas de nossas vidas para a realidade interna de nosso verdadeiro eu, a consciência de Cristo dentro de nós. Este movimento implica inevitavelmente uma mudança, em parte consciente e em parte inconsciente. No nível consciente, somos confrontados com a escolha de passar nosso tempo meditando em vez de ler ou assistir televisão; uma escolha consciente será conhecer pessoas que pensam da mesma forma em um grupo de meditação ou participar de um retiro; uma escolha consciente será, por exemplo, mudar o conteúdo de nossas leituras e formas de lazer. No entanto, no nível interno, a mudança real, mesmo a transformação que essa nova abordagem traz, é inconsciente e ocorre muito gradualmente. Na verdade, está totalmente fora de nosso controle; não podemos mudar a nós mesmos, somos transformados: este é o grande dom espiritual.

E este é precisamente o problema! Porque gostamos de estar no controle de tudo, gostamos de decidir o que acontece e como acontece. Não entregamos facilmente as rédeas de nossas vidas a ninguém. Mas na jornada espiritual o segredo está justamente aí: no desapego e na entrega a um Poder Superior.

Relacionado a essa necessidade de poder e controle está nosso desejo de alcançar. Quando começamos a meditar, de alguma forma, esperamos que ocorra uma transformação imediata e total da consciência e ficamos francamente desapontados ao ver que ainda somos essencialmente os mesmos. Queremos um resultado imediato do investimento de tempo e energia que a meditação exige...

Mas é a rendição à nossa repetição diária fiel do mantra que permite uma mudança interior gradual de perspectiva que afetará todo o nosso ser. É tão gradual que é quase imperceptível. A “centelha” da Luz Divina dentro de nós não se transforma da noite para o dia em fogo vigoroso e purificador. Não veremos os resultados em algumas semanas, ou em meses, ou talvez em anos. Mas se compararmos nossa maneira de reagir às situações ao longo do tempo, veremos que existem diferenças notáveis. Muitas vezes, são os outros que logo observam essa mudança de comportamento em nós, como disse a lagarta à borboleta: "Nossa, como você mudou!"

Um problema relacionado à nossa necessidade de poder e controle é nosso medo da mudança. Achamos que sabemos quem somos e construímos um sistema de sobrevivência eficaz que nos dá um senso claro de identidade e segurança. Mas, mais uma vez, temos a opção de permanecer como estamos ou de nos permitir crescer e deixar que a promessa de Jesus se cumpra em nós: "Eu vim para que vocês tenham vida, vida em toda a sua plenitude". Aceitar o crescimento sempre implica uma mudança. Devemos abraçar a mudança e parar de nadar contra a maré.



Kim Nataraja




Traduzido por WCCM Espanha
Via: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana - http://wccm.es/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A ORAÇÃO É UMA FACULDADE


Qualquer ser possui a faculdade de desejar ardentemente, de reclamar, de insistir. E isso já é a oração. Não é preciso ser-se um sábio nem um letrado para se lançar gritos ao Céu, basta ter um sentimento intenso. Por isso, se alguém hesita em empenhar-se na vida espiritual com o pretexto de que não possui as faculdades e as qualidades necessárias, podemos dizer-lhe: «Quando estás triste, quando sofres, não fazes tudo o que podes para te desembaraçares do teu mal? Não pedes ajuda? Pois bem, isso é o suficiente!» Cada um de nós possui a faculdade de se concentrar para gritar e pedir socorro, e é essa faculdade que pode salvar-vos em todas as circunstâncias.

Ficai sabendo que podem esmagar-vos de tal maneira que já nada reste de vós, a não ser um único átomo. Sim, pelo menos um átomo de vós subsistirá sempre e ele poderá reconstruir para vós o Universo inteiro. Este átomo é a faculdade de orar, de suplicar. Foi o maior dom que Deus concedeu ao ser humano. Sem essa faculdade, ele teria desaparecido há muito tempo.

Esta ideia da existência de um "átomo da oração", de que ninguém fala, pode parecer completamente inaceitável, impossível de acreditar… Todavia, vós já sabeis que, para a Ciência Iniciática, existe na ponta do coração um átomo cuja função é registar o que o homem pensa, sente e vive ao longo de toda a sua vida. Esse átomo não tem o poder de intervir para modificar seja o que for, apenas regista. Na realidade, é uma espécie de bobina microscópica que se desenrola ininterruptamente do princípio ao fim da existência, e no momento da morte ela pára e separa-se do corpo. É com esta bobina que o homem se apresenta no outro mundo perante os seus juízes.

Mas existe também um outro átomo graças ao qual o homem tem a possibilidade de pedir ajuda para enfrentar as dificuldades e remediar as situações. Se esse átomo não estiver desenvolvido porque o homem não ora, tudo se desenrolará para ele exatamente como estava determinado pelo destino. É claro que este átomo não pode mudar as grandes linhas da vida - é muito difícil modifica-las -, mas no domínio sutil, etérico, pode produzir mudanças. Por isso, as pessoas para quem a oração é um movimento natural têm mais possibilidades de sair triunfantes das provações do que as outras. Quando lhes aparecem dificuldades, elas sentem menos o desalento, a anarquia, a desolação.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: Publicações Maitreya, Porto,Portugal
https://publicacoesmaitreya.pt
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/isl%c3%a2mico-ora%c3%a7%c3%a3o-crep%c3%basculo-sol-3710002/